
Schmidt é um cara estranho. Ele não derramou nenhuma lágrima pela morte de sua mulher, com quem viveu por 42 anos, tampouco chorou ao ver sua filha se casando com um paspalho. Mas bastou receber a carta de um garotinho de seis anos que ele resolveu patrocinar em um programa de ajuda às crianças miseráveis do terceiro mundo e o velho turrão virou um pudim de lágrimas.
As Confissões de Schmidt é sublime porque é cínico e conquista o espectador ao explicar para ele que, abraçando os valores vazios impostos todos os dias, o que o espera na velhice é uma existência sem sentido em que ele inevitavelmente vai olhar para trás e pensar nos erros e fracassos do passado. Pior ainda: mesmo olhando para o passado e pensando em recomeçar, você não vai aprender nada e vai ser igual a todo mundo. Porque todo mundo, como você, é igual em seu desejo de ser diferente, especial, de fazer algo que deixe sua marca neste mundo.
Para fazer o proverbial homem médio, o diretor Alexander Payne escolheu o proverbial homem especial, personificado pelo grande Jack Nicholson. Eu não vou perder meu tempo ou o seu falando muito da atuação do Jack. Ele que sempre foi grande exibindo as várias versões dele mesmo, aqui ficou genial por se afastar de sua persona original, por aceitar uma pequenez que ninguém imaginava existir nele. Por algumas horas eu e você teremos algo em comum com Jack. Mais uma benesse magnânima do gênio para a sua audiência.
Depois de chegar do cinema, finalmente me deixei ler algo sobre o filme. Fui ler a Bravo e me surpreendi com uma resenha com a qual discordo em gênero, número e grau. Ali, o resenhista chama Payne de falso e de chutar cachorro morto. Como assim?
Para muitas pessoas, Schmidt é um drama lacrimogêneo comum, mas Payne nunca cai nessa armadilha. Vejamos alguns exemplos…
Na descrição que Schmidt faz de sua mulher, ele fala dos defeitos dela e de como ela fica jogando fora comidas com data de vencimento estouradas (Céus!!! Eu faço isso!). Algumas dezenas de minutos mais tarde, a personagem de Kathy Bates entrega para ele um remédio com a data de validade vencida. Em uma comedinha romântica ou mesmo em um draminha qualquer, esta cena seria a senha para a audiência entender que eles dois foram feitos um para o outro. Para Payne, é uma chance para tentar dizer algo. Você entende ou não. Schmidt, parece não entender.
A mesma coisa acontece quando nosso herói faz a sua jornada de reencontro que nada mais é do que uma jornada de desespero, já que Schmidt sai sem rumo justamente porque não sabe mais o que fazer com sua vida. A idéia vai soando cada vez mais patética quando ele começa visitando seu passado e acaba em museus e outras atrações turísticas baratas feitas para arrancar dinheiro de aposentados e desocupados como ele.
Da mesma forma, uma das principais sacadas do roteiro é o menininho para quem Schmidt manda suas cartas confessando sobre sua vida. Ele entra na vida do protagonista por meio de um comercial exibido na programação diurna da TV, feito para os aposentados que vêem TV neste horário e estão procurando um sentido em suas vidas. Mais ou menos como nós vamos estar em algumas décadas ou menos…
Ndugu, o menino, é apenas uma foto. Schmidt o conhece por meio de uma daquelas cartas padrão em que o nome do garoto vem escrito em letras diferentes, com uma impressora preenchendo uma lacuna. As informações chegam em um kit asséptico no qual o americano-aposentado-rico, direto de sua sala decorada com móveis caros e um papel de parede cafona, manda seus US$ 22 dólares para um garoto miserável e acha que com isso deu sentido à sua existência e remediou seu sentimento de culpa por ter tanto enquanto as pobres criancinhas esfomeadas do terceiro mundo têm tão pouco.
Até aqui o diretor, usando diversos recursos extremamente sutis, mostra que tem um controle absoluto da linguagem. Muita gente lê o filme de uma forma literal e enxerga a jornada de Schmidt, a cartinha do menino e tudo mais como uma prova de que o velho homem aprendeu uma lição sobre a vida. A mania escrota dos filmecos americanos.
Mas o que Payne mostra é que Schmidt volta tão estúpido quanto estava quando saiu de casa em busca de si mesmo. Para ele, sua mulher, sua filha, sua vida, todas as coisas que ele, eu e você construímos ao longo de nossas existências não fazem sentido. Mas uma carta asséptica escrita pela freira que diz cuidar de um garotinho pobre na África o faz debulhar-se nas lágrimas que ele jamais se permitira derramar.
Você pode ir com ele nesse choro catártico ou não. Mas faça diferente de Schmidt e tente entender e refletir sobre o que a ignorância, a rabugice e a cegueira de uma pessoa podem fazer com a percepção que ela tem a respeito de sua vida.