Arquivo de 03/2003

NUNCA FOI TÃO BOM PERDER UMA APOSTA

23/03/03

Eu apostei que o Michael Moore nunca ia ganhar o Oscar porque ninguém ia querer dar a ele aqueles 30 segundos ao vivo em um dos programas de maior audiência no mundo.

Perdi, ainda bem.

Debaixo de vaias de uma parte do público, ele subiu no palco e chamou seus concorrentes na categoria:

“Convidei os meus colegas indicados ao palco. Nós gostamos de documentário, mas vivemos uma época de ficção, com resultados eleitorais fictícios e presidente fictício. Essa guerra tem razões fictícias. Isso é uma vergonha, senhor Bush!”

Valeu, Michael. Te cortaram com aquela musiquinha, mas valeu.

Atualização:

Vídeo (em Quicktime) do discurso de Moore (direto do ótimo site Guardian Unlimited)

Notícias sobre o prêmio no IG e no UOL.

E a íntegra do discurso do Moore no UOL News.

“Uau. Em nome de nossos produtores Kathleen Glynn e Michael Donovan, do Canadá, eu gostaria de agradecer a Academia por isso. Eu convidei meus colegas documentaristas indicados para o palco conosco, e nós gostaríamos de - eles estão aqui em solidariedade comigo porque nós gostamos de não-ficção. Nós gostamos de não-ficção e vivemos em tempos fictícios. Nós vivemos no tempo em que temos eleições de resultados fictícios que elegem um presidente fictício. Nós vivemos em um tempo em que nós temos um homem nos mandando à guerra por razões fictícias. Se é a ficção da fita isolante ou a ficção dos alertas laranjas nós estamos contra essa guerra, Senhor Bush. Que vergonha, senhor Bush, que vergonha. E a qualquer momento em que você tem o Papa e as Dixie Chicks contra você, seu tempo acabou. Muito obrigado.”

E para terminar esse imenso update, leia o artigo do site United Press International sobre os eventos de ontem.

Discurso, discurso!!!

23/03/03

E seguindo meu mau-humor sobre essa guerra, veja trechos do discurso de senador americano Robert Byrd, retirado do site dele, que fica dentro do site do senado americano (essa eu vi no site do NemoNox).

Os erros de tradução são por minha conta.

“Em vez de nos entender com aqueles com quem discordamos, exigimos obediência. Em vez de isolar Saddam Hussein, nos isolamos. Proclamamos uma nova doutrina de preempção que é entendida por poucos e temida por muitos. Dizemos que os Estados Unidos têm o direito de voltar seu poder de fogo para qualquer canto do globo que poderia ser suspeito de terrorismo. E assumimos esse direito sem a sanção de nenhum organismo internacional. Como resultado, o mundo ficou muito mais perigoso.

O caso que esta administração tenta montar para justificar sua fixação pela guerra é feito em cima de documentos falsificados e evidências circunstanciais. Não podemos convencer o mundo da necessidade desta guerra por um motivo muito simples. É uma guerra que nós escolhemos.

Não há nenhuma informação credenciada que conecte Saddam Hussein ao 11 de Setembro. As torres gêmeas caíram porque um grupo terrorista, Al Qaeda, com celulas em 60 países, atacaram nossa riqueza e nossa influência transformando nossos aviões em mísseis.

O que aconteceu a este país? Quando nós nos tornamos uma nação que ignora e repreende nossos amigos? Quando decidimos arriscar minar a ordem internacional adotando uma abordagem radical e doutrinária para o uso de nosso formidável poderio militar? Como podemos abandonar os esforços diplomáticos quando a confusão mundial pede por essa diplomacia?

Por que esse presidente não parece ser capaz de ver que o verdadeiro poder da América não está em sua capacidade de intimidar, mas sim em sua habilidade de inspirar?”

Parace coisa do “Casseta & Planeta”

23/03/03

Certas coisas são tão absurdas, tão absurdas que você pensa que só podem ser piada.

Veja o caso da “FrontPage Magazine”, um site que deveria ser feito pelo Bush e pelo Ashcroft nas horas vagas.

O site é um primor e até convoca você para o boicote de produtos franceses e alemães, da “velha Europa”.

Dê uma olhada neste texto (que está em inglês, no original) sobre os protestos em São Francisco (tradução canhestra feita por mim :) )

“Mais de 500 pessoas foram detidas antes das 11h desta manhã; um repórter de TV declarou que “mais um caminhão deles” veio no meio da tarde. Soldados iraquianos rendidos? Não. Uma demonstração de anti-americanos à solta nas ruas de São Francisco.

“Há espaço na sociedade civil para uma gama variada de opiniões na guerra do Iraque, mas agora que o governo decidiu, temos a obrigação de dar suporte às nossas tropas e respeitar os sacrifícios que eles estão fazendo. Os que falam contra a guerra ainda têm enormes oportunidades de discordar - escrevendo para jornais, ligando para seus políticos e participando em protestos legalizados, planejados com a polícia.

Nossa polícia fez bem o seu trabalho, (…) mas quando podem apenas tirar um radical de ação por duas ou três horas de cada vez, as leis que eles cumprem estão falhando. Mas há passos que podemos tomar para corrigir essa situação.

A America está em guerra no Iraque. Deus abençoe nossas tropas, uns poucos resolveram trazer a guerra para casa. Que deus abençoe nossa polícia.”

Ai, ai, ai. Sempre os mesmos. Seja Fernandinho Beira-Mar, Osama Bin Laden ou Saddam Hussein, esses conservadores sempre querm usar isso como desculpa pra meter a porrada em alguém. Se for negro e pobre então…

Geneal e a nostalgia do carioca

23/03/03

O carioca, eu incluído, está sempre com saudade de alguma bobagem do passado. Deve ser coisa de ex-capital que perdeu um pouco do rumo e do charme e nunca se conformou com isso.
Resultado. De vez em quando ressurgem coisas como o mate nos cilindros de metal nas praias. Que são charmosos e retrô total, mas [...]

Gente como a Gente

21/03/03

Ah sim.

Para você lembrar que há gente naqueles predinhos que você está vendo explodir na TV, dê olhada nestas fotos.

Fique tranquilo. Não são fotos cheias de sangue. São imagens de gente como eu e você, fazendo festas, sorrindo, posando naquelas fotinhas simpáticas que a gente coloca no mural de cortiça.

Faça um minuto de silêncio por eles. Melhor que isso, fique ligado na programação em sua cidade de protestos pacíficos contra essa guerra assassina dos republicanos e grite, bote a boca no mundo.

E lembre-se. Mesmo que essas fotos fossem falsas, fossem de pessoas de outras cidades, ainda assim, serviriam para nos lembrar dos civis que estão morrendo agora, e que morreram no Afeganistão nos últimos dois anos da campanha americana pós 11 de setembro.

A carta

21/03/03

Aí vai o texto em português que o Globo publicou hoje e que traz a carta aberta de Michael Moore ao presidente Bush.

Michael Moore é o cara que fez os geniais programas de TV “The Awful Truth” e “TV Nation” e os documentários “The Big One”, “Roger & Me” e “Bowling for Columbine”. Semana passada, eu li um livro velho dele chamado “Downsize This!”, que é ótimo, e me arrependi de não ter comprado a versão em capa dura (e cara) de “Stupid White Men”.

Carta a George W. Bush

MICHAEL MOORE

Caro presidente George W. Bush:

Então hoje é o que o senhor chama de “o momento da verdade”, o dia em que “a França e o resto do mundo têm de botar as cartas sobre a mesa”. Estou feliz em saber que este dia finalmente chegou. Porque, tendo sobrevivido 440 dias a suas mentiras e conivência, não tinha certeza se poderia suportar muito mais. Então estou feliz em saber que hoje é o Dia da Verdade, porque tenho algumas que gostaria de dividir com o senhor:

1 - Não há ninguém na América (Fox News e aficionados por programas de bate-papo no rádio à parte) empolgado para ir à guerra. Acredite-me. Saia da Casa Branca e caminhe por qualquer rua da América e tente achar cinco pessoas que desejam apaixonadamente matar iraquianos. O senhor não vai encontrá-las. Por quê? Porque nenhum iraquiano jamais veio aqui e matou algum de nós. Nenhum iraquiano jamais ameaçou fazer isso. Como o senhor vê, é assim que nós, americanos de modo geral, pensamos: se um certo fulano não é percebido como uma ameaça para nossas vidas, então, acredite se quiser, nós não queremos matá-lo. É engraçado como isso acontece.

2 - A maioria dos americanos - estes que nunca o elegeram - não está iludida por suas armas de distração em massa. Nós sabemos quais são as verdadeiras questões que afetam nossas vidas diariamente - e nenhuma delas começa com I e termina com E. Aqui está o que nos assusta: dois milhões e meio de postos de trabalho perdidos desde que o senhor assumiu; o mercado de ações se tornou uma piada; ninguém sabe se seus fundos de aposentadoria estarão lá; a gasolina agora custa dois dólares o galão. E a lista não pára. Bombardear o Iraque não fará nada disso desaparecer. É preciso apenas que o senhor vá embora para que as coisas melhorem.

3 - Como disse Bill Maher semana passada, quanto foi preciso se esforçar para perder uma disputa de popularidade com Saddam Hussein?

4 - O Papa tem dito que essa guerra é um erro, que é um pecado. O Papa! Mas, pior que isso, Dixie Chicks agora está contra o senhor. Quanta coisa ruim ainda terá de acontecer antes de perceber que o senhor é um exército de um só nessa guerra? Obviamente, essa é uma guerra em que o senhor, pessoalmente, não terá de lutar. Como não lutou no Vietnã, enquanto os pobres eram mandados em seu lugar.

5 - Dos 535 membros do Congresso, apenas um (o senador Johnson, de Dakota do Sul) tem um filho alistado nas Forças Armadas. Se o senhor realmente quer defender a América, por favor, mande suas filhas gêmeas para o Kuwait imediatamente e deixe-as fazer suas próprias roupas contra armas químicas. E vamos ver todos os membros do Congresso com filhos em idade de servir ao Exército sacrificar suas crianças por esse esforço de guerra. O que o senhor diz? Ah, o senhor não pensa assim? Bem, imagine que nós também não pensamos assim.

6 - Finalmente, nós amamos a França. Sim, eles destituíram alguns monarcas. Sim, alguns deles podem ser terrivelmente chatos. Mas o senhor esqueceu que esse país não seria conhecido como América se não fosse pelos franceses? Que foi a ajuda dos franceses na Guerra da Independência que nos levou à vitória? Que foi a França que nos deu nossa Estátua da Liberdade? Que foi um francês que construiu a Chevrolet e dois irmãos franceses que inventaram o cinema? E agora eles estão fazendo o que somente um bom amigo pode fazer: dizer a verdade, diretamente. Pare de insultar os franceses e agradeça por eles estarem fazendo o certo. O senhor deveria ter viajado mais (pelo menos uma vez) antes de tomar posse. Sua ignorância sobre o mundo não o fez apenas parecer estúpido, mas o pôs num canto do qual não consegue mais sair.

Bem, alegre-se. Há boas notícias. Se o senhor realmente levar adiante essa guerra, muito provavelmente ela terminará logo, porque estou imaginando que não há muitos iraquianos dispostos a darem suas vidas para proteger Saddam Hussein. Depois de “ganhar” a guerra, o senhor experimentará um grande salto nas pesquisas de popularidade, já que todo mundo gosta de um vencedor. E quem não gosta de ver uma guerra de vez em quando (especialmente quando é alguma no terceiro mundo)? E assim como no Afeganistão, nós não esqueceremos sobre o que acontece a um país depois que nós o bombardeamos, porque isso é muito complexo. Simplesmente tente fazer o melhor para levar esta vitória até as eleições do ano que vem. Naturalmente, há ainda um longo caminho. Então todos nós tentaremos ser otimistas enquanto assistimos à economia afundar ainda mais.

Mas quem sabe o senhor encontra Osama poucos dias antes das eleições. Comece a pensar assim. Mantenha a esperança. Mate os iraquianos. Eles têm o nosso petróleo!!!
MICHAEL MOORE é documentarista e concorre ao Oscar deste ano com “Tiros em Columbine”. O artigo foi escrito no último dia 17.

A carta também está no site oficial do homem, em www.michaelmoore.com

Valeu, gordinho querido. Pena que há tão poucos americanos como você por aí.

Explosões em Bagdá

21/03/03

Eu não consigo nem achar graça. Devia ter alguma regra contra eu ir destruir um outro país e ainda televisionar o evento em rede mundial (leia-se, capitalizar em audiência e direitos de transmissão).

Fiquei enojado com aquelas imagens com múltiplas câmeras mostrando as explosões em Bagdá. Parecia uma transmissão de jogo de futebol com direito a replay e câmera de ângulo oposto. Pior, as câmeras são colocadas em locais perfeitos para mostrar as destrições em grande escala, mas a uma distância segura o suficiente para evitar que se mostre alguma pessoa morrendo.

Tudo que eu posso imaginar é que os americanos devem estar loucos para ver um grande prédio iraquiano explodindo pra poderem dizer: “vocês não explodiram o WTC? Agora tomem!!!!”. Não faz muita diferença que, supostamente, o autor daquele atentado seja um outro cara chamado Osama Bin Laden.

Vamos ter vergonha disso tudo em alguns anos. Se ainda estivermos aqui para contar essa (triste) história.

Eu tenho medo

21/03/03

O Cris e a Anna já se pronunciaram, então é minha vez.

Passei a noite vendo as imagens do início do ataque. Cobertura chata, desencontrada, sem profundidade. Deixa eu ver. Desde que eu nasci, já vi os americanos invadirem Panamá, Nicarágua, Iraque, Afeganistão e mai uns outros países. Já estou começando a confundir os nomes e as datas e nem sou tão velho assim.

Eu não sou historiador e digo isso em tom de papo de bar, só que sem cerveja: olhando os grandes ciclos que levaram às grandes guerras, os Estados Unidos caminham para se tornar os pivôs de um conflito mundial. Lembra quando seus professores te falaram da escalada armamentista de Hitler, aquele genocida? Pois eu não me surpreenderia se, após o recrudescimento do sentimento anti-americano na Europa, se depois dessas demonstrações de força e arrogância de Bush e suas águias, um conflito maior, envolvendo as grandes potências européias e os EUA, não poderia ser uma assustadora realidade no horizonte…

Em algum momento, grandes potências do passado, ainda orgulhosas, ainda poderosas, vão cansar de ouvir que elas foram salvas da tirania de Hitler pelos americanos. Em algum ponto do futuro, essa babaquice, essa patetice de mudar nome de batata frita, de jogar champanhe fora, de achar o Conan O´Brien engraçado e jogar futebol com as mãos vai acabar colocando os americanos em maus lençóis. Só que, como todo gigante, sua queda, se houver, poderá causar danos terríveis. Só posso torcer para não estarmos no meio do embrulho.

Bem-vindo

20/03/03

Ok. Você está se perguntando o que aconteceu aqui. Alexmaron.com fora do ar, um novo endereço, agora com o “.com.br”, lay out de um ano atrás… Caos total.

Já sei a sua primeira teoria. O Maron foi atacado pelas tropas de Bush. Ele, Powell, Cheney e as outras águias resolveram que meu bom e velho site devia ser uma central de armas de destruição em massa e mandaram um bombardeio devastador.

Seria uma boa cascata para contar… Mas não foi o que aconteceu.

A história é mais complicada e passa por eu ter perdido grande parte dos textos escritos aqui no último ano. Uma pena. Não pela qualidade dos textos, mas pelo valor sentimental deles. Logo eu que sou um alucinado por backups e copio os dados importantes do meu HD no mínimo mensalmente.

Então, enquanto arrumo essa casinha velha, passo a escrever por aqui. Fique comigo enquanto eu vou ajeitando as coisas, tirando a poeira, atualizando tudo e redesenhando esse site.

Obrigado pela visita e seja bem-vindo.

Aos poucos…

11/03/03

Algumas semanas atrás, milhares de pessoas em todo o mundo se manifestaram contra a tirania do governo Bush, que pretende atacar o Iraque a qualquer custo.

Parece pouco. O governo Bush e seus cupinchas ignoraram o fato. Ignoraram não, porque ele chegou a responder uma pergunta sobre isso na entrevista coletiva, ou seja, foi obrigado a lidar com a idéia abertamente.

No último mês, diz a Veja (link do CrisDias), diplomatas americanos resolveram deixar a carreira e botaram a boca no mundo, criticando o presidente e suas políticas.

Desses pequenos fatos pode acabar não saindo nada, eu sei. Mas isso é imprevisível. Dali podem sair as idéias, as contestações que esse governo precisa sofrer. Ademais, ano que vem temos eleição novamente, quem sabe alguma coisa muda… Pode ser só o início de uma virada.