De vozes e lembranças gravadas

Quando eu era moleque –Molequinho mesmo, porque meu pai e o meu irmão mais velho estavam vivos ainda e eu os perdi em 1982 (uns dias antes de eu fazer 10 anos) e 85 (aos 13), respectivamente– uma das minhas diversões era ficar registrando as nossas vozes em um daqueles gravadores velhos.

Passávamos tardes brincando de fazer esquetes humorísticos. A mesma coisa que íamos fazer depois com câmeras de vídeo nos anos 80. Meu pai, minha irmã (pirralhinha com seus dois ou três anos), meus irmãos, todo mundo ficava brincando e falando besteiras.

Legal, legal. Mas eu não tenho nenhuma dessas fitas. Eu só lembro de como era a voz do meu pai e do meu irmão, não tenho mais nenhum registro porque essas fitas se perderam, o som se foi, se estragaram. Nem vou entrar no sentimentalismo de dizer o quanto isso me frustra. Eu só fui ter acesso a uma câmera de vídeo depois da morte deles, então também não tenho nenhum registro deles em vídeo. E eu queria muito ter.

Ah sim. Tenho fotos. Muitas. Meu pai era um cara bonitão, foi se descuidando, fumava demais, tinha problemas demais e em algum momento decidiu que não valia a pena se cuidar, queria fumar e comer o quanto lhe desse vontade. Morreu dormindo em uma madrugada de julho de 1982. Alguns dias depois da derrota do Brasil para a Itália de Paolo Rossi.

Meu irmão morreu de um jeito mais estúpido. Ele usava uma moto pequena, uma 125 cilindradas, para se locomover nos tempos em que a Ilha do Governador era assolada por engarrafamentos homéricos. Pois um dia ele foi cortado por um maluco no viaduto da perimetral e bateu em um carro enguiçado. Era pra ser um tombo se ele, mesmo usando capacete, como manda o figurino, não tivesse sofrido uma lesão cerebral improvável e morresse dias depois.

E daí, meu filho?

E daí que o que você pode enxergar como uma baboseira emotiva serve para colocar em perspectiva a forma como certos objetos inanimados ganham valor. Quanto custa uma fita cassete? Uns R$ 5? R$ 1 no camelô? Quanto custa uma fita com a voz de seu ente querido que se foi?

Sim. Mas você viu que, mesmo tendo gravado fitas com meu pai e meu irmão eu perdi o material. E se eu já pudesse colocar tudo em um CD naqueles tempos?

Essa volta toda tem a ver com eu ter comprado um mini disc player e recorder da Sony na minha última viagem. É uma maquininha esperta, que grava MP3 direto do seu HD, copia canções de um CD de música e, usando uma saída mic e registra voz. Você vai dizer que eu sou maluco, mas quando eu vi isso, imediatamente pensei que poderia armazenar minhas entrevistas em CDs que eu queimaria em meu computador. Nada das fitas que vão perdendo a qualidade, os graves e agudos ao longo dos anos.

Eu lembrei da fita de uma tarde distante lá por volta de 1979 ou 1980 em que eu brinquei justo com meu pai e meu irmão e de como eu lembro com detalhes de passagens dessa fita mas não a tenho mais. Pensei em como seria tê-la para sempre. Fui lá e comprei o maldito aparelho.

Só que o MD Player é travado. Isso significa que eu não posso descarregar minhas gravações no meu HD. Sério. Não posso. A Sony se encarregou de tirar esse direito básico de seus compradores. Essas megacorporações estão indo longe demais.

Quando eu gravo imagens com a minha câmera de vídeo digital (eu eu me esmerei em ter imagens de quase todo mundo que eu amo registradas), ninguém me proíbe de manipular o seu conteúdo. Então, só porque as gravadoras estão fazendo um lobby forte, em uma espécie de canto do cisne de gigante moribundo se debatendo, um equipamento que lida com música, mas, antes de tudo, com som, chega travado na casa do seu usuário?

Então, amigos hackers de crackers de todo o mundo, destruam essa maldita trava dos Sony NET MD.

Conte para os amigos!

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