Arquivo de 02/2003

Dia 4 - 24 de novo

28/02/03

Como eu disse ontem, a entrevista com o elenco de Buffy foi cancelada. Fomos passear nos estudios da Fox de manha e passamos na lojinha de descontos de la. DVDs com precos otimos, mais baratos do que no Brasil, o que hoje em dia eh impensavel…

No meio da tarde, Kiefer Sutherland nos concedeu uma entrevista. Ele nao pode falar com a imprensa no dia marcado porque estava filmando algumas cenas complicadas (eh verdade, nos vimos ele filmando com uma maquiagem de “agente espancado” ou coisa parecida). Ele veio com um “agradeco a voces a chance que me dao de compensa-los pelo furo do outro dia”, um eufemismo educadissimo para o imenso favor que ele fez aos promotores da Fox Internacional, que ficaram na mao por conta do cancelamento de Buffy.

A entrevista foi otima, rica, com respostas elaboradas, coisa rara. Sutherland eh um homem inteligente e articulado, uma coisa rara entre os atores. As pessoas costumam idolatrar os astros das series. Eu admiro mesmo os criadores. As ideias malucas vem deles e sao eles que dao as respostas mais interessantes. Mas as pessoas nao querem saber deles, preferem ver as respostas vazias do ator. Vai entender.

Depois da otima entrevista, rumei para downtown LA, para o estadio Staples Center, em que o aconteceria o jogo dos Los Angeles Lakers contra os Detroit Pistons. Nem preciso dizer que foi divertidissimo. Antes do jogo, fiquei andando pelas ruas sujas e confusas do centro da cidade. Foi divertido.

O mais legal desta viagem ja passou. Agora, entrevisto o elenco de “Malcolm in the Middle”, de John Doe e volto pro Brasil com um milhao de coisas para resolver. Ja estou com saudades da Monica e do meu cachorro, o Sagan. A unica frustracao dessa viagem eh que, a cada coisa legal que eu faco, fico pensando que, se minha irma tivesse tirado o diabo do visto americano quando foi pro Canada, ela estaria comigo aqui amanha e poderiamos passear por aqui. Uma pena, to morrendo de saudades dela.

Alo, mamae…

27/02/03

Ops. Fui citado em uma lista da Folha como um dos 50 blogs mais interessantes da Internet brasileira.

Nada mal. O autor da lista eh um cara muito inteligente, esperto, bacana e sabe o que eh um bom blog :-)

Dia 3 - Angel

27/02/03

“Eh bem menor do que eu pensava”, diziam todos os jornalistas que iam entrando no set de filmagem do seriado “Angel”, um hotel antigo que eh habitado pela trupe do heroi.

Como eu ja entrei em diversos sets de series americanas, alguns poucos filmes e das novelas brasileiras (otimos sets por sinal), nao fiquei tao surpreso. Eh uma questao de usar as lentes certas e a magica esta feita.

Entrevistei todo o elenco, menos os atores que intepretam o Connor e a Winnifred. Todos muito educados e solicitos. A dupla de astros, Charisma Carpenter (Cordelia) e David Boreanaz (Angel), absolutamente bem humorados, comentaram o fim iminente de Buffy e a ideia de participar do ultimo episodio da serie.

Charisma deixou claro que nao gostaria de estar neste episodio de jeito nenhum. Ela acha que so iria prejudicar Angel, que esta se esforcando para se firmar na grade do canal Warner americano. Boreanaz foi mais politico. Nao disse se gostaria ou nao, para ele, se Joss Wedon mandar, ele simplesmente vai la e faz.

Apos o evento, todos foram pegos de surpresa com o cancelamento da junket de amanha, quinta, com o elenco de Buffy.

O motivo? Depois de meses de rumoras, agora eh oficial, a serie esta cancelada. Sarah Michelle Gellar (a Buffy) e Eliza Dushku (a Faith) se negaram a seguir com o programa. SMG estara trabalhando em um novo filme em agosto e Dushku assinou contrato para uma serie nova.

Amanha eu conto mais.

Dia 2 - 24 Horas

26/02/03

O estado contra Fox Mulder. Tomei um susto quando li esse relatorio em um papel timbrado em cima de uma mesa da castigada sede do CTU, a central de contra-terrorismo do seriado “24 Horas”. Era uma piada de um dos produtores da serie, que veio de um trabalho vitorioso em “Arquivo X”. O relatorio foi minha lembranca surrupiada do set de filmagem da serie mais bacana do momento.

Fomos recebidos muito bem. Um buffet farto, pessoas correndo para todo lado com jaquetas bacanas carregando a estampa “24″, as mesas arrumadas no meio do cenario devastado do CTU, que sofreu com uma bomba que explode tudo no terceiro episodio, que eu imagino que foi exibido esta semana ai no Brasil.

Os atores vao chegando. Dennis Haysbert, que faz o presidente, Penny Johnson, que faz a bitch Sherry Palmer, Carlos Bernard, que interpreta Tony Almeida, Sarah Wynter (Kate Warner) e a magrelinha Elisha Cuthbert. Todos, com excecao de Bernard, que veio todo blase, estavam solicitos e dispostos a responder as perguntas. Como 24 Horas eh uma serie muito contemporanea, virou um prato cheio para os reporteres, principalmente quando o criador Joel Surnow apareceu. Para decepcao geral, Kiefer Sutherland nao deu entrevistas. Mas surgiu todo maquiado, cheio de sangue artificial, gravando uma cena.

No fim, ainda ganhamos um livro bacana que reune diversas informacoes sobre a primeira temporada. Brinde bacana que eu nunca compraria, mas que vai servir para me ajudar a passar o tempo na looonga viagem de volta ao Brasil…

Ah sim! Eu fui ao set de Still Standing tambem, mas, fala serio, quem iria querer saber disso?

Amanha… Angel

Dia 1 - Simpsons, Boston Public, o Desafio…

25/02/03

(que falta fazem esses acentos. prometo que reviso melhor esses textos quando chegar no Brasil. Agora, tenho que correr porque a fila nos computadores do hotel e meio grandinha)

Depois de estar morrendo de cansaco, consegui dormir umas cinco horinhas. Acordei as 6h30 da matina e fui andar de bicicleta, fazer um alongamento, dar uma caminhada. Voltei pro hotel por volta das 7h40, tomei um banho e me juntei aos colegas da imprensa mundial.

Fomos recebidos pelo proprio Matt Groening, simpaticissimo. O conheci quase quatro anos atras em um evento aqui em Los Angeles, mas naquele dia eu disputava a atencao dele com uma centena de jornalistas. Hoje ele estava mais afavel e mais proximo das pessoas, ja que as entrevistas sao no estilo round table (cinco jornalistas sentam com o artista por uns 10 a 15 minutos e podem disparar perguntas).

Groening foi seguido por alguns de seus escritores, todos bem-humorados e animadissimos para falar com a imprensa. Dois deles comentaram o episodio sobre o Rio de Janeiro e um deles chegou a brincar dizendo que da proxima vez eles precisam fazer uma pesquisa melhor para que as piadas fiquem ainda mais sacanas. Eu nao fiquei ofendido com aquele episodio, sei que a serie satiriza todo mundo sem distincao. Alias, Groening e sua trupe odeiam o Bush e viviam sacaneando o Clinton. Assim como os cassetas, atacam todo mundo…

Dali, fomos para o set de Boston Public e O Desafio, que sao feitos pela mesma produtora. Do Desafio, nao falei com Dylan McDermott (Bobby Donnell) nem com a Lara Flynn Boyle (Helen Gamble). Entrevistei o Michael Badalucco (Jimmy Berluti) o Steve Harris (Eugene Young) e a simpaticissima Camryn Manheim (Eleanor Frutt), que ate mostrou fotos do filho dela, corujissima.

Do Boston Public fiquei muito bem impressionado com a Jeri Ryan (Ronnie), com Anthony Heald (Scott Gubber) e com Loretta Levine (Marta). Chi McBride, o ator que interpreta o diretor da escola, Steven Harper, foi defensivo e tratou todos muito mal.

O denominador comum? Todos odeiam Bush e estao envergonhados com o que seu presidente, que eles nem consideram legitimo, esta fazendo. Engracado, me lembra um pouco a Rosinha no Rio…

Depois, dessa maratona, fui passear em Santa Monica, na Third Street Promenade, uma ruazinha fofa, cheia de livarias, cafes e cinemas. Terminei a noite jantando em um restaurante no The Grove, um shopping a ceu aberto que abriu aqui pouco tempo atras. Mas deu tudo errado por conta de uma verdadeira chuvarada. Sem casaco, cheguei no hotel congelando de frio. Mas nao eh nada que uma banheira de agua quente nao resolva.

Amanha, terca, eh dia de visitar os setes de 24 Horas e Still Standing.

Pifando…

24/02/03

No sabado, dia de viajar, eu acordei antes das 10 da manha. Passei um dia agitado, arrumando as coisas, e viajei. Agora, sao 23h15, pela hora local, 4h15 no Brasil. Sao 42 horas direto sem dormir. Estou pifando.

Mas nao resisti e fui ver o “Demolidor”. O filme nao e um lixo nao, mas tambem nao eh nenhuma maravilha. Tem os defeitos que eu ja tinha previsto quando vi o trailer, direcao de atores pra la de amadora. Para piorar, aquele mala do Colin Farrel esta insuportavel, histrionico, ridiculo.

Os efeitos especiais em que o personagem aparece fazendo acrobacias pelos predios sofrem com um problema cronico: movimentos que sao lindos para desenhos animados, mas que soam artificiais porque estao misturados com seres humanos de verdade. Em essencia, sao ruins para o padrao atual.

Outra coisa que da ao filme um ar de producao barata eh a selecao de coadjuvantes. Eles sao, em geral, atores muito marcados por papeis terciarios em producoes de quinta. Ai nao da. Macula a imagem do filme.

E os figurino? Pelamordedeus!!! Os figurinos sao, alias, embaracosos.

Mas eu odiei o filme? Claro que nao. “Demolidor” tem defeitos pegos por um fa do personagem que ainda por cima ganha a vida escrevendo sobre esse assunto. Mas eh um filme legal. Tem boas cenas de luta e a Jennifer Garner. Nao compromete, mas vamos esperar que X-Men 2 mantenha o padrao, por favor.

Patrulhamento?

6/02/03

Eu não gosto de Sandro Guidalli. Já disse isso aqui antes.

Mas daí a apoiar a decisão do pessoal do site Comunique-Se de não tê-lo mais como colunista porque diversos leitores do site resolveram reclamar é algo questionável.

Me lembra aqueles momentos negros em que os jornais deixam de apoiar seus colunistas e os abandonam por conta de forças estranhas. Eu não imagino que tipo de choques ocorreram nos bastidores, mas fico com medo de que o patrulhamento que ele tanto criticava (e que eu achava um enorme exagero dele) esteja surgindo forte. Desta vez foi ele. Em algum tempo, poderemos ser eu e você.

Essas ondas conservadoras e burras sempre começam pequenas. Logo nós temos gente como a Rosinha, governadora do Rio, ou empresas como a Fiat tentando (e conseguindo) tirando sites do ar. Quando esta semana que a “Você S/A” teve uma reportagem censurada, fiquei com aquele calafrio de que a justiça brasileira, antes temerária de fazer censura, embarcou no início com alguma timidez e agora sem a menor vergonha (basta pensar na censura do “Correio Braziliense”) em uma onda que a gente não sabe onde vai bater.

Patrulhamento e censura são uma coisa muito confortável para quem concorda com o caso censurado. Mas quando começa a censura, ela se torna sofisticada, insidiosa e onipresente. Em pouco tempo, qualquer coisa pode ser censurada porque incomoda a alguma pessoa e o fluxo de idéias fica corrompido. Tenha medo.

Domingo, 2 de fevereiro de 2003

2/02/03

No Oscar, existe a categoria Melhor Documentário. Se há um filme que mereceria vencê-la este ano, chama-se “Bowling for Columbine” (algo como “Jogando Boliche por Columbine”), de Michael Moore (veja o site dele).

Moore é um documentarista ácido. Ele desanca as grandes corporações e o desdém dos ricos em relação aos pobres. Uma de suas especialidades é fazer esses ricos passarem por situações constrangedoras. Nem precisava mais do que isso para se tornar meu ídolo.

No filme, ele usa como base a tragédia da escola Columbine (em que dois garotos mataram 12 adolescentes e um professor e depois se mataram) para discutir o que torna os Estados Unidos um país tão violento. Seria o rock and roll, os videogames violentos, a TV, os filmes, a pobreza ou simplesmente o hábito de jogar boliche?

Ao longo do brilhante trabalho de Moore, ele conta um pouco da história dos Estados Unidos, de outros países (mostrando como outros países com passado violento têm taxas de homicídios por armas de fogo infinitamente menores do que os EUA)e coloca ícones do showbiz em situações complicadas. Moore não se furta de fazer perguntas difíceis a quem quer que seja. Ele coloca Dick Clark, Charlton Heston e até mesmo os diretores do magazine K-Mart em verdadeiras saias justas.

O filme passou por aqui no ano passado durante o Festival de Cinema BR(ganhou o prêmio do público) e venceu outros festivais por todo o mundo. Não deixe de ver. É, um dos melhores documentários que eu já vi, ao lado de “Ônibus 174″, “Santo Forte” e “Edifício Master”. Aliás, foi o primeiro documentário selecionado para a mostra competitiva do Festival de Cannes em 46 anos (e ganhou o prêmio especial do júri). Alias 2, foi considerado o melhor documentário de todos os tempos pela Associação Internacional de Documentários (conta a BBC).

Eu pedi um Oscar para Moore, mas acho que ele ser premiado é difícil. Imagino aqueles conservadores insuportáveis da academia tendo calafrios ao imaginar aquele maluco fazendo um discurso ao vivo para um bilhão de pessoas em todo o mundo. Nem pensar.