No cinema, fiz sessão dupla ontem. Vi “Assassinato em Gosford Park” e “Uma Mente Brilhante”.
O primeiro, de Robert Altman, mostra uma reunião de ingleses decadentes na mansão de um velho milionário na década de 30. A graça está na forma como o diretor Robert Altman mostra os bastidores da criadagem e em como esses bastidores serão a chave para desvendar o assassinato que acontece no meio do filme.
Os filmes de Altman, no entanto, são lentos para quem gosta da ação (dramática ou física) ininterrupta e dos roteiros precisos em que tudo tem um motivo. Fala-se muito e sobre tudo, o tom de crítica permeia toda a narrativa, mas o curioso é que em Gosford Park, cada fofoca pode levar à solução do caso. E, claro, não será a polícia, servil e também fissurada no glamour dos mais ricos, que será capaz de solucionar o caso.
Fuja de “Dr. T e as Mulheres”, assista “Assasinato em Gosford Park” no cinema e, a caminho de casa, pegue no videoclube “O Jogador” e “Short Cuts”, que são ótimos também.
Depois, na sessão da meia-noite, assisti à “Uma Mente Brilhante”. Menos brilhante do que Altman, o diretor Ron Howard faz um filme interessante, mas que trapaceia você, crédulo espectador.
Vale por Russel Crowe, que foi premiado com o Globo de Ouro de melhor ator por seu desempenho técnico e concentradíssimo, e pela deslumbrante Jenniffer Connelly, também premiada com o Globo de Ouro de melhor atriz.
Basicamente, o filme segue a cartilha de uma boa biografia. Mostra John Nash, um matemático brilhante que desenvolve uma teoria que mudaria todo o pensamento econômico da segunda metade do século. Acontece que Nash é esquizofrênico e sofrerá muito para enfrentar a doença e recuperar sua dignidade.
É aquela coisa de sempre, bem edificante e fazendo a mitificação do gênio e do ambiente acadêmico das universidades americanas. Lá, os filmes mostram, é um Olimpo de gênios inatingíveis que respiram teorias que vão mudar o mundo. Então, intoxicado por isso, o roteirista vai te encher de analogias entre o mundo real e as mais complexas teorias matemáticas. Só para te dar aquele delicioso sentimento de assombro. É truque, mas e daí? O que importa é que funciona.
É um vício de filme americano. Se a história é sobre um escritor, o ato de datilografar uma página vira algo zen, mágico. Quando o filme é sobre golfe, dá-lhe discussões filosóficas complexas sobre o tal esporte. Se é sobre boxe, futebol, tênis, artes marciais e até as cheerleaders vai ser a mesma coisa. O roteirita vai transformar aquilo em algo zen, mitificado, cheio de platitudes. Dê um desconto e divirta-se.