O seq�estrador morre e como ele se vai nossa dignidade
Todo mundo j� sabe. O seq�estrador da filha do Silvio Santos morreu misteriosamente na pris�o. A maioria das pessoas acha que ele foi assassinado pela pr�pria pol�cia, mas isso ainda n�o foi provado.
Um grande parte dessa maioria acha que ele j� foi tarde, que ladr�o tem mais � que morrer mesmo. Ponto. � uma daquelas irracionalidades do senso comum que eu n�o consigo entender.
Como assim? Como eu posso achar isso, querer bandido morto, uma irracionalidade? Deixa eu tentar elaborar isso direito.
A primeira coisa a se dizer � que uma pol�cia e uma sociedade que n�o respeitam os criminosos n�o s�o dignas. Isso � b�sico.
Mas as pessoas acham que n�o. Que os direitos humanos existem s� para criminosos e n�o para as v�timas. � um pensamento t�o �bvio, t�o sedutor, que � f�cil perder o que est� impl�cito.
As leis n�o foram criadas para proteger criminosos, mas para evitar injusti�as contra inocentes. Em um pa�s como o Brasil em 1974, no auge da ditadura militar, se uma pessoa n�o gostasse de voc� e tivesse conex�es com a m�quina assassina do Estado voc� desapareceria sem problemas.
Da mesma forma, como n�o havia legalidade, a justi�a n�o funcionava, qualquer prisioneiro era torturado e at� morto sem que fosse feita nenhuma pergunta. Pais de fam�lia foram mortos pelas for�as militares que eram pagas para proteg�-los.
Quando voc� n�o faz perguntas a uma pol�cia, ela se corrompe infindavelmente e o suposto assassinato do seq�estrador � s� a ponta desse iceberg. � por isso que as pessoas t�m medo de ser paradas pela pol�cia no meio da madrugada. Porque como eles n�o respondem a ningu�m, se n�o gostarem de voc�, ser� seu fim, amigo.
Uma cr�tica comum ao sistema brasileiro � que n�s n�o temos pena de morte. O modelo sempre vai para os Estados Unidos, aquele pa�s bacana onde os direitos civis foram jogados no lixo depois do 11 de setembro do ano passado e no qual, se voc� achar seu vizinho estranho, basta ligar para o FBI e v�-lo desaparecer.
Pois bem, mesmo l� a pena de morte s� existe em alguns estados e h�, nos �ltimos 20 anos, 16 casos de condenados sobre cujos processos pairavam d�vidas de legitimidade. Ele podem ter morrido mesmo sendo inocentes.
Um grande amigo me mandou no outro dia um e-mail dizendo que a pena de morte reduziu no Texas a criminalidade em 63%. Esse mesmo amigo sabe que as estat�sticas s�o torcidas ao bel prazer. Mas quando elas nos favorecem corremos a mostra-las.
Eu tenho duas coisas a dizer sobre o Texas e sua pena capital. A primeira � que, se a estat�stica est� certa, � uma pena que a �nica forma que um Estado do pa�s mais poderoso e rico do mundo s� consiga reduzir sua criminalidade dizimando criminosos, o que mostra mais a falta de recursos da justi�a, da pol�cia e do pr�prio governo para controlar um �ndice que em outras localidades � reduzido de forma menos sangrenta.
A segunda coisa � justamente o questionamento dessa estat�stica. Como eu disse acima, n�meros sabem dan�ar muito bem e podem ser conduzidos melhor que uma parceira de gafieira. Se eu pegar uma queda de criminalidade ligada a uma melhoria sist�mica da pol�cia e das condi��es sociais do Texas e apenas compara-la com o estabelecimento da pena de morte estarei apenas usando uma esperteza para defender um ponto de vista.
E qualquer pessoa sensata sabe que ter um argumento que lhe sirva n�o lhe d� a raz�o, apenas lhe confere a melhor justificativa das redondezas.
Bom, este texto j� est� grande demais. Paro por aqui, mas aguardo suas opini�es, nos coment�rios ou por e-mail.