São engraçados os dilemas enfrentados por um jogador de EverQuest (a realidade virtual comercializada pela Sony na qual você é um cavaleiro medieval). Ontem, dia de plantão da Mônica, eu entrei no mundo virtual de Norrath durante algumas horas com uma personagem paladina chamada jocosamente por mim de Sahphada. Os paladinos são guerreiros do bem. Capazes de curar pessoas com o toque de suas mãos.No meio da madrugada, depois de uma batalha do meu grupo de companheiros de viagem dentro de umas cavernas, achei uma bolsa jogada no chão. Isso é relativamente comum em batalhas longas em lugares distantes. A gente junta umas tralhas inúteis e joga fora porque está lotado, começa a ficar mais lento e a lutar (e fugir) com dificuldade.
Eu peguei sem medo de ser feliz e pensei, “legal, alguem jogou isso fora, me dei bem”. Aí, um dos nossos foi atacado e cercado por um monte de monstros e todo mundo foi ajudá-lo. Quase fomos riscados do mapa, mas vencemos os bichos. Logo em seguida, aparece o CrisDias e me avisa que tem uns objetos para dar para a minha personagem. Eu me despedi do grupo sem lembrar de perguntar se alguém era o dono da maldita bolsa e fui embora.
Cheguei no mercado e comecei a vender as coisas e quando a tal bolsa já estava ficando vazia veio uma mensagem direta para mim do cara mais legal do grupo perguntando se eu não tinha visto uma bolsa no meio da confusão.
Eu já tinha vendido mais da metade da bolsa e pensei, “putz, agora vai até pegar mal contar que peguei, vou dizer que não”.
Disse que não. Aí o cara praguejou e disse: “É que era uma bolsa mágica que dava menos 10% no peso”. Eu gelei. Essa não, a bolsa é valiosa!!! E agora? No segundo seguinte veio o pior. Eu cliquei sobre uma espada para vender e o mercador me ofereceu 300pp. O Cris e a Renata, a mulher dele, sabem que, se isso acontece, é porque a espada vale muuuuuuuuito mais!!! Como é que eu podia ficar com um negócio daqueles? Valia, virtualmente claro, muito dinheiro!!!! Ou melhor, 5600 dinheiros do jogo. Uma pequena fortuna. Meu melhor personagem no jogo não tem nem 500 dinheiros!!
E, gente, era a espada mais sensacional que eu já vi. Me dava proteção espiritual, aumentava minha força, agilidade, resistência a mágica, frio, veneno. Etc. etc. etc.
O demoniozinho disse: “shhhhh, fica quieto. fica com a espada!!! Se manda dai para outra zona, cara. Faz um personagem novo.”
o anjinho falou: “Você é a Sahphada, mas também é o Alexandre. Você faria isso? E ainda, a Sahphada é uma paladina. Como uma paladina do bem roubaria uma espada de um cara legal?”
Mas tinha a vergonha. Eu não sabia como explicar que fiquei com a bolsa, o mal entendido e coisa e tal. Fiquei sem saber o que fazer durante alguns minutos. Até que veio um “grito” de um cara perguntando: “does someone know where’s the thief’s guild?” (tradução simultânea: alguém aí sabe onde fica a guilda dos ladrões?”)
A palavra “thief” me gelou a alma. Como se estivessem falando comigo. Juro, foi ridículo assim, que nem desenho animado.
Eu mandei uma mensagem pro cara que perdeu a bolsa e perguntei onde ele estava. Fui lá e dei a bolsa para ele com a espada dentro. Ele ficou superfeliz por causa da bolsa. Eu expliquei o que tinha acontecido e ele falou que não tinha problema, que entendia o que aconteceu e coisa e tal.
Ai ele notou que espada estava dentro!!! Ele não lembrava daquela espada sensacional!!!!! Ficou super aliviado. Éengraçado como a gente se vê dentro de dilemas morais nas situações mais idiotas. Eu tive que equilibrar a vergonha de dizer pro cara que tinha mentido, mas ponderei que:
1. A vergonha maior eu sentiria se ficasse com um objeto valioso como aquele, era roubo, ou talvez furto. virtual ou real, era aquilo mesmo e pronto.
2. Eu estava usando a vergonha como desculpa porque eu queria muito aquela super-espada e não tenho o dinheiro virtual para comprá-la. Simples assim.
Mesmo com a Mônica, minha mulher, me chamando de mané hoje quando eu contei isso para ela, me sinto de consciência limpa. Maneiro eu passar por uma situação dessas em um simples joguinho de computador.