5352726
A.I. � conto de fadas �s vezes simplista, mas sempre ambicioso
Falar de intelig�ncia artificial, o ramo da ci�ncia, n�o o filme, � correr o risco de chover no molhado e ainda conquistar inimizades. Ent�o, vou deixar aqui bem claro uma coisa. Eu acho que o que importa em n�s � o que pensamos, nossas id�ias. O reposit�rio dessas id�ias, seja ele biol�gico ou n�o, � apenas o reposit�rio, nada mais. Assim, quando se fala em abandonar corpos biol�gicos e viver como personas digitais usando cascas met�licas para conquistar a eternidade, confesso que isso n�o me assusta. Me deixa mais interessado no que poderia ser feito a partir da�.
Ou seja. Para mim, o termo ser humano se aplica ao software que est� rodando aqui na minha caixola e n�o ao hardware, meu corpo, ou propriamente a caixola. Entendido? �timo, ent�o vamos ao pr�ximo passo, o filme �A.I.�, de Steven Spielberg, que sai aqui como �Intelig�ncia Artificial�.
Spielberg entendeu e parece concordar pelo menos em parte com essa id�ia. Desde �ET� ele se esfor�a em provar que n�o importa o que voc� mostra por fora, se for uma pessoa boa, se tiver algum tipo de sentimento bom, essa � a ess�ncia de sua humanidade. Dito assim parece piegas, mas n�o �. � s� uma defini��o simples para a id�ia.
Claro que, sendo produto da gera��o flower power misturada com os loucos anos 70, ele tenta dizer isso por meio da bondade. A maldade e a crueldade n�o t�m espa�o nos her�is do diretor. Ainda mais neste filme, roteirizado por ele. Em �ET� o pequeno alien n�o � capaz de fazer mal a humanos, aqui em �AI� tamb�m. O bem � inocente, incapaz de fazer o mal por querer. E tudo o que significa o mal, o n�o ser humano, � riscado. Aqui est� o ponto do qual discordo mais radicalmente de Spielberg. A maldade nos faz t�o humanos quanto a bondade. � que para o diretor, tudo se liga ao cora��o, �s emo��es mais �bvias e b�sicas do ser humano.
Mas o principal componente aqui � que chega aos cinemas em algumas semanas um filme sobre um rob� que ama. E essa id�ia n�o � tratada pelo diretor como uma fic��o rasteira. Ele realmente quer opinar sobre o assunto, quer dizer o que pensa daquilo. O assunto est� chegando perto de n�s.
Claro que, em se tratando de Spielberg, Daniel, o robozinho do filme, � uma esp�cie de ET querendo voltar para casa. Mas essa seria uma vis�o superficial. Spielberg, com todos os seus defeitos, escreve um roteiro que discute a forma como somos experts em colocar pessoas em segundo plano, em como somos capazes de tratar pessoas como inferiores.
Talvez seja isso. Em um mundo como o nosso, a coisa mais podre e odiosa acaba sendo o preconceito, esse h�bito hip�crita do qual nenhum de n�s est� livre de achar que aquilo que o outro faz ou � � inferior �quilo que n�s fazemos. Se somos mesmo t�o pequenos quanto a ci�ncia cada vez mais insiste em nos lembrar, se somos feitos de p�s de estrelas, delas viemos e para elas vamos voltar, preconceito � rid�culo n�o s� porque � hip�crita, mas porque n�o tem nenhuma fun��o no grande plano das coisas.
O Fim