A Crise Antes dos 30
No �ltimo domingo, M�nica, a minha namorada, que � um ano mais velha que eu, fez 30 anos. Minha vez est� chegando.
M�nica n�o quis festa. Quis passar por isso, esse marco, sem comemora��es, tamb�m por conta da morte de sua av�, a dona Ana, de c�ncer, aos 92.
Dona Ana era incans�vel. Era uma daquelas velhinhas deliciosas, fofinhas, divertidas. L�cida, �vida por jornais, por informa��es e capaz de comentar todos os assuntos, parecia eterna, imposs�vel de derrubar.
Quando soubemos da doen�a dela, eu confesso que achei que ela ia tirar o tumor e viver mais uns bons dez anos. � engra�ado me pegar tendo essas id�ias. Mas somos todos iguais, eu, voc� e os outros. Eu queria muito que o mundo fosse m�gico.
Ela se cansou de sofrer e disse que estava na hora do supl�cio acabar. Acho que quem chega nessa idade ganha meio que o direito de escolher a hora e o lugar. Ela morreu em casa, nos bra�os da M�nica, no dia que disse que tinha chegado a hora.
Ent�o, era compreens�vel que festa n�o fosse uma coisa exatamente desejada pela M�nica. Mas eu achei que, mesmo sem festa, era preciso marcar a passagem para a quarta d�cada vida dela de alguma forma. Minha m�e arrumou um bolinho, umas velas e eu chamei uns amigos. O que, ali�s, seguindo meu padr�o de digress�es cada vez mais despropositadas, me leva a pensar em Paix�o Plat�nica.
Essa semana, durante uma crise do CrisDias, tamb�m pertos dos 30, eu disse para ele o que eu achava de tudo. Os 30 s�o como uma paix�o plat�nica.
Lembra das paix�es plat�nicas. Ou voc� as vive ainda hoje? E por que elas se arrastam por meses, �s vezes anos? Simples, porque quando voc� se declarar a(o) sua(seu) amada(o), se ele disser que �n�o�, o sonho acaba. E �n�o�… � �n�o�. Chegar aos 30 d� essa sensa��o de que o sonho acabou. Toc, toc, toc. A realidade bate � sua porta. � hora de acordar e ir � luta.
Quando eu tinha 18 anos, precisava decidir ser ia ser piloto de ca�a, analista de sistemas, engenheiro ou jornalista. Eu tinha que escolher um caminho e escolhi a an�lise de sistemas. N�o porque fosse realmente o que eu queria para minha vida, mas era o que, naquele momento conturbado, com a grana muuuuito apertada, parecia ser capaz de me dar o sustento.
Pois mudei de rumo no meio do caminho. Com uma ajuda inestim�vel de um amigo larguei tudo e fui fazer comunica��o. Minha vida deu um giro de 180o e aqui estou.
N�o acho que seja t�o f�cil fazer isso hoje, embora n�o seja imposs�vel se reinventar novamente. Mas vai ficando cada vez mais dif�cil. N�o porque tem que ser assim, mas porque nossa organiza��o social e econ�mica nos obriga a seguir esse figurino.
Ent�o a gente come�a a questionar tudo, como se houvesse uma data limite para ser feliz. Estou chegando aos trinta, � hora de decidir o caminho.
O que mais me chamou a aten��o � como tudo mudou. Eu peguei uma foto que tiramos em fevereiro de 1993, eu e M�nica reunidos com nosso grupo de amigos, felizes no fim do ver�o daquele ano. T�nhamos um duro ano pela frente, eu ia mudar minha vida completamente, largar a inform�tica, pedir demiss�o do meu emprego, fazer vestibular para comunica��o.
E eu, ela e todos parec�amos t�o felizes. E n�s est�vamos, porque aquele grupo parecia perfeito. �ramos engra�ados, nos divert�amos juntos, n�o havia brigas, discuss�es. Sa�amos para cinemas, teatros, bares, boates ou fic�vamos em casa jogando Imagem e A��o, Desafino, War, sei l�. �ramos um grupo muito parecido com um que voc� tem ou teve.
Anos depois, eu e M�nica n�o conseguimos reunir nem 10% desse grupo. O Cris est� em Nova York, o F�bio, com a nova namorada, e assim por diante. E n�s �ramos o grupo perfeito.
Aos 13 anos, tive outro grupo perfeito. Jog�vamos futebol, v�lei, jogos de tabuleiro, sa�amos para festas, cinemas. T�nhamos um timinho de futebol e um clubinho ao qual contribu�amos com uma graninha para comprar jogos, bolas de futebol, basquete, v�lei etc. Nenhum deles estava em minha festa do 25. N�s nos encontramos de vez em quando, batemos papo, mas perdemos contato.
Aos 17 fiz parte de outra turma. Essa nem t�o perfeita. Bem ao estilo dos conflituosos grupos adolescentes. Havia um monte de conflitos. Nenhum deses estava na reuni�ozinha da semana passada, embora nos falemos at� hoje. Frustrante.
Vamos em frente, deixando um monte de coisas para tr�s e n�o paramos para recolher os peda�os. Por qu�? � a sede de sucesso ou o processo natural? As carreiras se colocam no caminho? O que atrapalha? As viagens, as mudan�as de cidade ou as de prioridade?
Me desculpe por escrever tudo isso. � que me sinto solit�rio. Estou naquela entresafra em que parece que eu nunca mais vou ter aquela felicidade de estar com os melhores amigos do mundo vivendo algo maravilhoso. Parece que nunca mais vou ter meus queridos amigos e meu grupo perfeito.