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Fazenda das regras suas aliadas

Em meio � bagun�a, � profus�o de lan�amentos de filmes e ao cinismo reinante j� est� ficando dif�cil dizer quando um filme � realmente bom.

Os motivos se embaralham, as motiva��es est�o obscuras, mas grande parte das queixas das pessoas vem da ignor�ncia de como funciona a produ��o de um grande filme comecial ou de como � feito um filme independente.

Vamos por partes, ok?

Uma pe�a de teatro trabalha com limita��es f�sicas e conceituais que n�o podem ser ignoradas. H� uma limitada troca de cen�rios e de a��es que podem ser executadas pelos personagens em cena. Mesmo nas megaprodu��es da Broadway, onde tudo parece ser poss�vel, o espectador, maravilhado, precisa ser capaz de uma certa suspens�o de descren�a, precisa embarcar na brincadeira.

Assim, voc� h� de convir que certas hist�rias se prestam melhor a pe�as do que a filmes ou at� livros. Ou seja, certas hist�rias funcionam melhor em alguns meios. Dentro do pr�prio teatro, existem g�neros e tamanhos diferentes de teatros, palcos, que favorecem certos tipos de pe�as e hist�rias.

Ent�o transporte isso ao cinema. H� certas hist�rias que o ferramental do cinema conta melhor que o teatro, assim como o inverso tamb�m verdadeiro. O cinema trabalha com a ilus�o direta. Enquanto em pe�as de teatro voc� v� dois atores sentados em duas cadeiras conversando e tem que assumir que eles est�o em um carro passeando, no cinema, voc� os v� l�, no carro, a paisagem ao fundo, o vento no rosto.

Essa literalidade do cinema � uma daquelas coisas que algumas pessoas adoram e outras odeiam. Subjetividade pura. Uns amam a met�fora das cadeiras, o jogo intelectual do teatro. Outros acham isso lindo no teatro, mas adoram receber a interpreta��o sem intermedi�rios da imagina��o do diretor que s� � poss�vel no cinema, at� o momento.

S� que mesmo o cinema tem formas de funcionar. H� os pequenos filmes baratos e as grandes superprodu��es. H� quem banque os filmes baratos e quem corra riscos pagando os sal�rios e os custos materiais de uma superprodu��o. E as hist�rias e os p�blicos podem ficar bem diferentes.

Em uma produ��o pequena, o custo � menor, portanto, pode-se ousar mais, j� que o risco n�o � t�o grande. � ali que surgem os roteiros inovadores, as estruturas dram�ticas ousadas e, de certa forma em alguns momentos, disfuncionais. � quase um dever do cinema, digamos, pequeno, procurar novas linguagens, inovar.

Quando voc� gasta milh�es, � diferente. Come�a a se cercar de pesquisas para garantir que o p�blico ir� aos cinemas, alugar� as fitas VHS e comprar� os DVDs. � parte da estrutura. N�o se joga US$ 80 milh�es pelo ralo sem que voc� se cerque de garantias de lucro mais na frente.
N�o � � toa que alguns grandes atores pagam pequenas produ��es de seus pr�prios bolsos, caso de �O Ap�stolo�, com Robert Duvall, e �Pollock�, com Ed Harris. Projetos pessoais, baratos, e, por isso, com formatos que respeitam certos limites.

Quem conhece cinema ou TV, sabe como � escrever um roteiro e pensar em quanto vai custar aquilo. As limita��es s�o in�meras e v�o desde a conseguir um carro e um dubl� a descobrir a loca��o perfeita para uma cena.

Quando se tem dinheiro, voc� pode contar hist�rias grandiosas, ter os atores dos seus sonhos, os roteiristas e os t�cnicos mais tarimbados. Mas vai precisar ouvir as sugest�es pouco art�sticas do investidor, o produtor que arriscou o dinheiro dele no seu filme.

E � a� que se coloca � prova a capacidade de um bom diretor. J� ficou comprovado que diretores de filmes pequenos encontram dificuldades para trabalhar na estrutura hollywoodiana. Eles t�m que abrir m�o de suas vis�es em prol das exig�ncias de produtores que querem mais nudez, mais beijos, mais a��o, um roteiro com mais foco no personagem tal. Os pobres diretores de grandes produ��es precisam aturar tamb�m os agentes dos atores querendo que seus clientes tenham mais tempo de tela, mais falas, �ngulos mais favor�veis.

Ent�o, quando um grande filme comercial suplanta todas essas concess�es e ainda consegue ser bom. Trazer dentro dele as mensagens sonhadas pelo diretor, eu consigo ver no meio da fuma�a de algumas concess�es e bater palmas.

Foi assim com �Matrix� (que gerou um milh�o de discuss�es entre quem amou, eu inclu�do nesse grupo, e quem odiou), foi assim com �Titanic�, que chegou a ser um filme maldito, fadado ao fracasso. Quando estreou, recebeu milh�es de eleogios da cr�tica, obrigada a reconhecer que o filme era bom, mas acertou t�o em cheio no gosto do p�blico, que passou a ser odiado pr partes da cr�tica e aquela fatia do p�blico que n�o aceita compartilhar do gosto popular e se exclui.

O que agrada ao grande p�blico s�o certos arqu�tipos, certos componentes mitol�gicos que tocam fundo, certos tipos de m�sicas (como a desastrosa can��o de Celine Dion, que se tornou um marco da cafonice).

O que desagrada a uma parcela consistente da classe m�dia e alta, principalmente, � compartilhar dos gostos do grande p�blico. Ent�o, por conta do sucesso estrondoso de certos filmes ou pe�as, � preciso encontrar o caminho da disconr�ncia.

L� se v�o argumentos contra �Titanic� como, �morreu gente demais de um jeito detalhado demais� ou �ele imitou cenas inteiras de filmes anteriores sobre o naufr�gio�. D� para perceber que, sob certos aspectos, s�o cr�ticas absolutamente aceit�veis? Mas que t�m muito mais a ver com gosto do que com uma avalia��o do que o filme realmente significa.

Um grande e inteligent�ssimo amigo meu disse que �Matrix� n�o era bom porque n�o trazia nada de novo. Era a adapta��o de uma revista em quadrinhos, usava elementos j� surrados da literatura cyberpunk, se apoiava em clich�s dos filmes de a��o. S�o argumentos v�lidos, voc� h� de concordar, mas que n�o funcionam quando se fala de um filme. Porque fazer filmes adaptados de livros, revistas � um costume muito comum. Nada h� de errado nisso e os milh�es de f�s de �O Poderoso Chef�o� est�o a� para confirmar. Esse filme ali�s � um exemplo de filme encomendado que, por conta do talento de Francis Ford Coppola, virou uma obra respeitada at� por intelectuais.

Normalmente, envolvemos nossos gostos pessoas e os confundimos com avalia��es frias de uma obra. Eu, por exemplo, vi �Alta Freq��ncia�, um filme absolutamente esquec�vel que o Dennis Quaid fez no ano passado, e adorei. Mas o motivo para mim � muito simples. Na hist�ria, um filho reencontra o pai que morreu quando ele era crian�a por conta de um fen�meno inexplic�vel, mas que o permite alterar a hist�ria e salvar a vida de seu pai. Como eu perdi meu pai aos dez anos e meu irm�o aos 14 em um acidente, nada me falou mais fundo do que aquela historinha boc�.

N�o sa� achando o filme uma obra prima, mas reconheci que ele, maldosamente, apertou alguns bot�ezinhos emocionais l� no fundo.

Para terminar, aponto o oscarizado do ano, Steven Soderbergh, como um exemplo de quem � capaz de fazer o grande e o pequeno filme. Ele fez �O Estranho�, com Terence Stamp, e �Sexo, Mentiras e Videoteipe�, com o James Spader e a Andie MacDowell. Mas tamb�m realizou �Erin Brockovich�, com Julia Roberts, e �Irresist�vel Paix�o�, com Jennifer Lopez e George Clooney, filmes absolutamente convencionais.

J� �Traffic� � um cap�tulo � parte. Merece coment�rios exclusivos.

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Idiota, arrogante, grosseiro e com cara de babaca

S�o os meus adjetivos para o Bush. Libero aqui meu desejo infantil que prometo controlar nas pr�ximas notas.

A volta de um Bush ao reinado, digo, � presid�ncia � um evento especial. Com poucos meses de empossado, o cara liberou como nunca todas as formas de agress�o � natureza que lhe pareciam poss�veis e j� se meteu em uma embrulhada com a �nica pot�ncia que pode fazer frente aos Estados Unidos hoje, a China.

Uma embrulhada que beira o rid�culo.

Quando o cerco em torno de Clinton apertava por causa dos boquetes da Monica Lewinsky, ele arrumava rapidinho uma crise internacional e disparava seus m�sseis. Mas ao menos, na maior parte de seu governo, o ex�rcito norte-americano foi mandado em miss�es humanit�rias.

Com Bush, ao menor sinal de um desaquecimento econ�mico que ele n�o imagina como desembrulhar, em meio ao marasmo de uma administra��o incompetente e pregui�osa, o cara arruma uma crise internacional para aparecer um pouquinho. Mas n�o adianta. Sua cara de asno s� aumenta o nojo.

Vou resumir o rid�culo e passar para outro assunto. O avi�o dos EUA invade o espa�o alheio, � apreendido e os caras, al�m de exigirem que o avi�o seja devolvido ainda n�o querem pedir desculpas?

Vamos fazer o seguinte. Vou tentar fazer uma analogia, ok?

Zezinho tem a m�e mais gostosa da rua e adora brincar com seu aeromodelo, um jatinho bacana.

Um dia, ele brinca com seu jatinho bacan�simo dentro do espa�o a�reo de seu quintal, quando, ap�s uma manobra, ele se choca com um helic�ptero tamb�m de aeromodelo e ambos caem dentro do quintal.

Quando ele vai olhar o helic�ptero, descobre que tem uma filmadora acoplada. Pior, estava filmando sua m�e nua, deitada na cama do quarto. Sim, naquela fitinha, sua m�e aparece fazendo algumas coisas que ele n�o gostaria de ver nas m�os dos amiguinhos da rua.

No entanto, o vizinho safado e bisbilhoteiro quer seu helic�ptero espi�o de volta. Ele grita de l� do outro lado do muro que a m�quina � sua e que ele a quer de volta sem que nada tenha sido mexido. Como ele � forte e tem uma turminha de brutamontes muito grossos tamb�m, faz isso tudo, exige a devolu��o e nem se lembra de pedir desculpas.

Claro que, como o helic�ptero � dele, deve ser devolvido. Mas da� a achar que ele vai receber a fita com as imagens indecorosas da m�o do garoto j� passa dos limites do bom senso. E o ato de fazer uma tremenda grossura como essa e n�o ser capaz de pedir desculpas, s� prova que tipo de imbecis esses vizinhos s�o.

Ainda bem que � s� uma f�bula, n�o temos nada parecido na vida real.

(D� para ver que um dos motivos de eu ter insistido em colocar a nota anterior � que eu tinha acabado de escrever essa, n�?)

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Bush n�o vai aderir ao Protocolo de Kyoto

(Esse post deveria ter sido publicado na semana passada, mas com a confus�o que foi a manuten��o que o Eve fez no Blogger, eu s� pude fazer isso agora. Voltaremos � programa��o normal em breve…)

Quem n�o conhece a pol�tica norte-americana n�o consegue entender a diferen�a entre republicanos e democratas. Basta prestar aten��o aos detalhes e ter assistido ao menos � parte de um dos debates entre os candidatos � presid�ncia, no ano passado.

A decis�o do presidente Bush, o filho, d� uma pista de como a coisa funciona.

N�o s�o diferen�as t�o did�ticas, como quem � bom e quem � ruim. Seria f�cil demais. Tem a ver com plataformas ideol�gicas muito espec�ficas.

A principal diferen�a est� no fato de que republicanos s�o voltados para dentro dos EUA, s� se voltam para fora no momento de dar �corretivos� em quem discorda deles em algum ponto.

Os democratas acham que os Estados Unidos podem e devem usar sua for�a e exercer sua influ�ncia no mundo. Isso consolida sua for�a, sim, e ainda os faz sair bem na foto.

Democratas s�o tamb�m mais progressistas, t�m plataformas voltadas aos direitos humanos e preocupa��es sociais. Com isso disfar�am melhor, s�o mais simp�ticos. Os republicanos s�o adeptos do pior tipo de darwinismo do qual j� falei em uma nota uma vez, e sobre o qual vale a pena repetir.

Veja bem, certas teses servem muito bem ao seu tempo. E uma delas � a da sele��o natural, a da evolu��o, da sobreviv�ncia do mais forte. Nada serviu melhor a uma classe do que essa tese. Para a cada vez mais forte classe burguesa, nada como o surgimento de uma teoria que valoriza o esfor�o pessoal, o valor de suas qualidades e coloca voc� como superior a seus semelhantes, porque � mais adaptado do que eles.

Pois o darwinismo aplicado � pol�tica � uma desculpa hist�rica usada pelos tiranos. Se sou mais forte do que voc�, sou melhor e mais adaptado � situa��o do que voc�. Azar o seu, sorte minha.

Olhar para a cara daquele idiota dizendo que todos deveriam apoiar sua decis�o de manter um comportamento absolutamente predat�rio, porque, se aquilo seria bom para os EUA, deveria ser bom para o resto do mundo, foi uma experi�ncia educativa.

� rid�culo que diante de tudo o que sabemos, de todo o conhecimento gerado, da no��o de que � necess�rio criar mecanismos de controle, de estabelecer um crescimento sustentado, um ignorante como esse afirme algo assim.

� a velha arrog�ncia da direita anglosax�, misturada com uma estupidez e uma descren�a no que a ci�ncia est� gritando para eles. Que precisamos ter cuidado ou vamos ter s�rios problemas, que nem toda a tecnologia gerada pela humanidade vai ser capaz de resolver.

Mas nada disso importa para eles. Azar o nosso.

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Do alto, o Rio � ainda mais lindo

Quem viaja muito de avi�o acaba desenvolvendo uma certa avers�o a viajar na janela. � meio inexplic�vel, mas � mais r�pido para sair do avi�o quando ele pousa e voc� n�o precisa ficar pedindo licen�a para ir ao banheiro. Al�m disso, quem fica na janela pensa duas vezes antes de fazer qualquer coisa, d� tanto trabalho para se movimentar que voc� acaba preso no canto.

Pois ainda assim, de vez em quando viajo de janela. Felizmente, n�o perco o assombro com certas coisas. No �ltimo s�bado, fiz isso. Fui para o Rio pela manh� ensolarada, e o piloto fezo um generoso sobrev�o pelo Maracan�, o samb�dromo e fechou com chave de ouro passando pelo P�o de A��car.

Maravilhoso. Que saudades do Rio.