Caio Blat largou cobertura na Barra e foi morar no vidigal
A capa da “Isto � Gente” dessa semana � uma daquelas provas cabais dessa ind�stria podre da celebridade alimentada por uma rede de publica��es indigentes e leitores imbecis. Somando tudo, a conta n�o fecha.
A hist�ria � a seguinte: O ator Caio Blat, uma jovem promessa de astro da Rede Globo e protagonista da novela das sete, uma bobagem chamada “Um Anjo Caiu do C�u”, resolveu se mudar de sua cobertura na Barra para uma casa no morro do Vidigal. Uma favela l� em S�o Conrado, no Rio de Janeiro. Lei a mat�ria AQUI e volte para continuar o nosso papo.
A justificativa do projeto de ser humano e de ator � que ele precisa fazer laborat�rio para uma pe�a que est� produzindo. Na entrevista, um primor de cafonice do in�cio ao fim, ele fala mais uma vez de suas id�ias.
Vamos ser c�ticos e assumir que a revista aumentou as coisas, tirou algumas das falas de contexto e produziu uma reportagem imprecisa. Mesmo assim, n�o d� para levar a s�rio o cara se ele faz isso tudo e arruma uma capinha de revista para que todo mundo saiba como ele � bacana e foi morar no meio da mis�ria.
� mais uma caso dessa fixa��o inomin�vel das pessoas por celebridade e pela forma como essas celebridades vendem sua vida t�o barato. Sim, porque ao abrir a porta de sua casa na favela (alugada, segundo ele, por R$ 2000, o mesmo pre�o da cobertura na Barra) em uma esp�cie de “Caras” �s avessas, esse garoto est� alimentando o mesmo monstro.
Ele diz que est� tendo uma li��o de cidadania. H�? Como assim? Cidadania?
Cmo a experi�ncia de quem foi rep�rter de TV aberta por mais de dois anos, posso falar sobre os esfor�o desses meninos e meninas novos para dizer que t�m algo mais. Que s�o politizados, que s�o inteligentes, cultos e se preocupam com as pessoas ao seu redor.
Ent�o, o que eles fazem? Se agarram aos s�mbolos. Blat diz que compra R$ 750 de livros por m�s. Para que diabos ele disse isso que n�o seja para dar uma medida de como ele se alimenta de cultura? Claro, que ele n�o deve ter dito do nada, isso � pergunta t�pica de rep�rter querendo fazer reportagem de new journalism.
- Voc� gosta de ler, Caio?
- Adoro – diz o gal�zinho.
- Mas, assim, o que voc� l�?
- Adoro poesia e leio muito.
- Mas, assim, quanto voc� gasta com livros por m�s para me dar uma id�ia.
- Sei l�, uns R$ 600, R$ 700, uns R$ 750.
� assim que funciona. No texto, parece que o garoto disse s� para se mostrar. Fica feio, mas mesmo que ele tenha sido pego de surpresa pela pergunta, porque dizer quanto gasta?
Em uma entrevista que fiz com uma estrelinha da Globo, me lembro de ter sido muito bem recebido e dela ter sentado no sof� ao meu lado, sem se esquecer de colocar no sonzinho da sala um CD da trilha sonora de “Paris, Texas”, filme de quando o Wim Wenders era bom. Trimmmmmmmmmm! Olha o sino tocando. Alerta! Alerta!! Detectada tentativa iminente de parecer inteligente.
Entender de TV, de cinema, de m�sica e de literatura, este �ltimo principalmente, s�o formas perfeitas de parecer inteligente. Avisar para o mundo que foi morar em uma favela, mesmo tendo dinheiro para morar em outro lugar � apenas mais uma forma de aparecer bem na foto. S� me d� ainda mais nojo.
Vivemos na era na qual tudo � montado. At� a espontaneidade.
Minha irm� trabalha no Santa Marta, aquele morro de l� do Humait�, como orientadora de um projeto de controle ambiental. Ela tenta ensinar grupos de jovens naquela favela a n�o jogarem lixo nas encostas, a preservarem o lugar onde moram de diversas maneiras. Ganha R$ 200 por m�s e vai para l� com aquele sorriso de quem est� ajudando o mundo a mudar.
Um grande amigo meu foi morar no mesmo morro, o Santa Marta. Nenhum de voc�s soube, mas ele esteve l�. N�o foi capa de revista, n�? Despojado, esse meu amigo ficou l� por muitos meses e n�o saiu contando para todo mundo para parecer nobre. Isso era uma coisa que eu e todas as muuuuitas pessoas adoram ele j� sab�amos e n�o precis�vamos de um s�mbolo vazio como esse para notar.
Gente como eles n�o investe nessas id�ias vazias. Sabe que n�o � uma capa idiota como essa em uma revista de fofocas que vai dar em algu�m, quelquer pessoa, uma li��o de cidadania.