Essa busca pela decodificação do genoma é fogo. Como todo mundo acha que a tecnologia será o eldorado do século 21, um monte de respeitáveis senhores de avental arregaçou as mangas e resolveu brigar pelos seus milhões.
Tem o Craig Venter, da Celera Genomics, Francis Collins, da Human Genome Project, e um monte de companhias menores brigando por uma migalha que seja dos bilhões que, estima-se, o setor vai movimentar nos próximos anos.
Assim, como há diversas novas empresas na área de biotecnologia e genômica (manipulação de genes), elas estão brigando para aparecer nos jornais com alguma frase de efeito. É um jogo mesquinho. Veja bem, quando todo mundo da “comunidade científica” começa a falar mal do projeto da Celera Genomics, por exemplo, espera-se que suas ações despenquem.
Esse efeito curioso é uma das grandes discussões atuais da bioética. Levar a ciência para um campo empresarial pode ser fatal para o desenvolvimento. Sim, porque no mundo do sobe e desce das cotações da bolsa, mais importante do que estar cientificamente certo é parecer cientificamente certo.
Para quem está imerso em uma economia neoliberal, entender por que isso é ruim é muito difícil. Mas eu vou começar pelas universidades. Uma das grandes idiotices do nosso governo foi adotar a idéia de formar para o mercado. Isso é o mesmo que matar o nosso futuro. Quando criamos um curso para suprir necessidades de mercado, estamos cortando e inibindo a criatividade inerente à atividade acadêmica. Acreditem, as pessoas gostam de dizer que a faculdade é cheia de caras que só ficam ali, naquele ambiente protegido, sem precisar se preocupar com mais nada. É uma grande besteira.
Embora existam os sangue-sugas (existem em qualquer lugar, afinal) o sistema cuida de criar conhecimento. Essa é a principal função de uma universidade. É de lá, da academia, que saem as grandes idéias, os grandes pensadores. O ambiente efervescente estimula. Mas uma universidade voltada para criar robôs teleguiados prontos para o mercado, só isso, não dá. É muito pouco. Se você quer só um emprego, faça um curso profissionalizante. Tem um monte por aí.
O grande efeito dessa pesquisa apenas atrás dos interesses comerciais é que num mundo como esse, ninguém perde tempo procurando a cura de uma doença que mate poucas pessoas. Na lógica comercial, os caras pensam que não há retorno em pesquisar e desenvolver uma droga que “só vai salvar umas 100 vidas por ano”. Como assim? E seu for eu ou você, e se for seu irmão ou seu(sua) namorado(a)? O detalhe bizarro é que milhares de descobertas saíram de pesquisas feitas para desenvolvimento de outros produtos. Pesquisar é importante porque cria novas possibilidades, novas perguntas. Pesquisar para o mercado limita tudo.
Assim, voltamos ao assunto inicial. Os caras estão brigando para definir quantos genes temos no corpo. São 35 mil, 75 mil, 90 mil ou 150 mil? A cada declaração jocosa de um, o outro é colocado em questão, uma piadinha tenta desmerecer seu projeto. O que é preciso ter em mente é que o mapa não basta, vamos precisar de mais alguns bons anos de pesquisas para saber o que fazer com esse esquema.